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O que uma vaga de garagem significa para você?

Meu interesse pela pesquisa sobre estacionamentos ocorreu, pela simples constatação de que vivemos em meio a um “mar de veículos”. Nos Estados Unidos, a área de estacionamentos ocupa um terço da área total construída (Eran Ben-Joseph, 2012). E no Brasil, essa proporção não difere muito. De acordo com o Secovi (2015), a maior parcela dos imóveis residenciais é de dois dormitórios. Se considerarmos que têm em torno de 65m2 e somadas as áreas comuns obrigatórias, temos praticamente a mesma proporção. A área média de circulação e vaga é de 25m2 e a maioria das grandes cidades exige no mínimo uma vaga por unidade habitacional.
Portanto, apesar de existir um movimento para estimular novos modais, a realidade brasileira nos mostra que a convivência com os estacionamentos será longa e melhorar seus espaços é uma questão emergente.
Do meu ponto de vista, a preocupação maior em qualquer espaço projetado, são as pessoas. E num estacionamento não é diferente. Existe uma circulação compartilhada entre vários agentes: pedestres, veículos de passeio, de carga, ciclistas, motos, entre outros. E por trás de todos eles temos pessoas, e é para elas que o espaço precisa ser projetado.
Hoje, nos projetos arquitetônicos, a preocupação parece se restringir a funcionalidade da atividade fim e a estética da edificação. O estacionamento é visto como consequência do sistema estrutural adotado para os pavimentos superiores, e, como resultado tem-se uma subutilização do espaço, circulações perigosas e desconfortáveis aos usuários. Será que não podemos fazer estacionamentos mais eficientes e que ocupem menos espaço?
Pensando novamente nas pessoas, principalmente nos pedestres, otimizar os espaços reduz tempo de percurso. Estudos americanos indicam que o tempo aceitável para achar uma vaga, estacionar e caminhar do carro ao estabelecimento, chamado de “park and walk”, é de 71 segundos. Eles consideram que o maior tempo gasto é realizado à pé, no entanto raramente são considerados como parte da experiência espacial dos empreendimentos. Dificilmente são projetadas faixas de circulação segura aos que caminham. E o estacionamento é o primeiro e o último espaço a ser visitado por significativa parcela dos usuários.
Empreendimentos que se preocupam com os fluxos; com as manobras seguras; que pensam no conforto dos usuários em termos de iluminação, ventilação, sinalização; que conduzam os diversos modais sem conflitos; que pense nos diferentes tipos de limitações das pessoas, podem ser considerados de qualidade. Além disso, o projeto precisa se preocupar com a cidade. Proporcionar áreas de acumulação nos acessos para não sobrecarregar o sistema viário do entorno, contribui também para o interesse pelo empreendimento.
Outra proposta inovadora que demonstra uma gentileza com a cidade, é ceder o estacionamento como espaço compartilhado. Existem inúmeros exemplos espontâneos no mundo: escolas que utilizam os estacionamentos para prática de esportes e recreação; igreja que utiliza para festas; cinema ao ar livre promovido pela associação de moradores. Em Curitiba, alguns shoppings têm cedido seus espaços para a realização de corridas de rua.
Portanto, a provocação que faço é: as áreas de estacionamentos podem ser multifuncionais, aproveitadas para outras atividades mais nobres, pois o espaço nas cidades é escasso e valioso. O que mais um estacionamento pode ser além de depósito ocioso de veículos? Vamos tornar um terço de nossas cidades mais útil para a sociedade.

Yumi Yamawaki , Arquiteta Urbanista e Sócia da GaragePlan em artigo publicado na revista ABRAPARK – JUNHO 2016

http://abrapark.com.br/site/wp-content/uploads/2016/08/abrapark-parking-30.pdf

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